O destino me espera
Uma moça, do interior de Minas Gerais, acabara de perder mais uma criança. Ela estava no quinto mês de gravidez. A tragédia a deixou muito emocionada, assim passou a carregar consigo a dor e o sofrimento pela perda. Fora a quinta tentativa de gestação mal sucedida, mas, mesmo assim, ela tinha no íntimo a esperança de um dia conseguir obter a felicidade de ser mãe. Por isso sussurrava aos ouvidos de Deus:
—Oh Senhor, por que tu és tão cruel para comigo?
Maria – esse era o nome da moça - era uma mulher que amava criança. Ela nascera em uma tribo indigna do interior de Minas, por isso amava as crianças, como é característica de todos os índios. Outra paixão de Maria era a natureza. Respeitava muito a mãe terra e tudo o era produzido por ela. A moça também gostava de se banhar nas cachoeiras da fazenda do coronel Valente, seu marido. Esse era muito mau. Na sua personalidade havia o rigor e o nervosismo. Era costume a esse moço maltratar as esposas. Maria não escapou dessa covardia masculina.
O dia estava ensolarado e propício para que a moça fosse se banhar em uma cachoeira, mas ela não saia do quarto. Comenta-se na fazenda que houve uma tremenda discussão entre o casal Valente. Uma voz murmurava no interior do quarto:
— Eu só quero ser livre. Não quero viver igual a uma prisioneira nessa fazenda. Era a moça reclamando do marido. A liberdade que ela almejava ia muito além da dependência do esposo. Queria ser livre a ponto de lutar contra os homens que destroem a mãe natureza. Essa era quem a índia mais amava na vida.
Tramitava na câmara de vereadores da cidade um projeto lei que tinha na pauta a previsão da construção de uma estrada para facilitar o acesso à cidade. Para que tal empreendimento fosse efetivado, era necessário haver a transposição das águas do rio que cortava a fazenda do Coronel Valente. Maria se preocupava com os animais aquáticos e ribeirinhos que seriam afetados pelo deslocamento do rio para dar lugar a uma rodovia.
A noite chegou. A garota dormiu preocupada com o projeto. No outro dia, pela manha, a moça acordou após sentir um beijo ao rosto. Era o coronel Valente. Assustada e confusa, ela pensou em fugir. Resignou-se. Aceitou o beijo do estúpido marido. Após se entregar ao Coronel, ela foi à mesa participar do café da manhã. Ao terminar a refeição, ouviu as seguintes palavras do marido:
— Eu sei que você ama aquele rio, por isso permitirei que você vá se banhar nele hoje, por que em breve consumarei o negócio com o prefeito: a transposição. Peco-lhe que não apronte nele lugar.
Maria abaixou a cabeça e saiu para o quintal. Estava confusa quanto à última frase pronunciada pelo esposo. Ela nunca havia desapontado o Coronel. Nunca fez coisa errada.
Às dezoito horas foi ao marido pedir a permissão para ir à igreja. Não suportava a angustia que carregava no peito e acreditava que o padre era a única pessoa que poderia auxiliá-la. Após passar ao confessionário, voltou ao rio. O objetivo era praticar o ritual indígena de purificação da alma. Era preciso se banhar em uma água gélida para expelir os maus espíritos que a perturbava. Após o banho, começou a passear pela margem do rio. Ela andou umas sete vezes treze metros e se deparou com uma surpresa. Então ficou transtornada.
— Meu Deus! O senhor me abençoou. Essa é a criança que eu tanto sonhei. Ela é a “Maria Eduarda”. Continuou:
—Minha santinha; minha filha! Abra os olhos que eu vou ajudar você.
Maria deu um longo sorriso ao ver a criança abrir os olhinhos.
—Que Lindo! Você está viva. Vamos para o seu novo lar.
A moça chega à casa toda feliz. O Coronel não estava na casa; ele havia ido à casa de uma comadre para ajudá-la a consertar o chuveiro que havia estragado – isso ocorrera na hora em que a mulher se banhava. O compadre do Coronel era caminhoneiro e, devido à profissão, era obrigado passar muitos dias longe do lar. A falta do compadre obriga o Coronel Valente auxiliar a comadre. Ele era como o santo remédio para os problemas. Isso era o que costumava dizer a mulher do caminhoneiro.
Ao chegar a casa, o coronel encontrou a esposa muito feliz. Não sabendo o porquê da felicidade, ele ficou muito desconfiado da moça e foi logo perguntando:
—Por que você está tão feliz? Que ocorreu de bom depois da missa?
—Meu amor, venha até o quarto que eu vou lhe mostrar.
O coronel ficou nervoso, mas não deixou a ira aparecer no rosto. Não aceitava as orientações do padre aos fiéis a praticarem ritos diferentes aos que eles trouxeram da infância. Via os religiosos com desconfiança. Os padres estavam a inovar nos ritos para domesticar os fiéis. Ao chegar ao quarto o moço tomou um susto e perguntou
— o que essa criança está fazendo na minha cama?
A moça respondeu ao marido:
— Eu a achei no rio. Agora ela será nossa filha. O nome dela é “Maria Eduarda”.
O coronel não gostou da idéia da mulher, porém a aceitou. Pediu a esposa que mudasse o nome da criança para Duda.
O tempo passou e a criança cresceu; como já estava na adolescência, a garota já conseguia entender os sentimentos da mãe, por isso chamou ao pai e confessou-lhe:
— Quando eu era criança, vi todo o tempo minha mãe chorar; porém ela não me contava nada, porque dizia que eu era pequena para entender os sentimentos de adulto. Agora eu não sou mais criança, por isso quero que o senhor ajude-me a descobrir esse mistério.
O coronel desconversou. Não esclareceu nada a Duda e tampouco disse que iria ajudá-la a desvendar os mistérios da esposa.
Passou-se uma semana e a menina encontrou a mãe a chorar em um canto da casa. Então lhe perguntou:
— Por que a senhora chora tanto mamãe?
— Não se preocupe comigo, minha filha. Respondeu-lhe Maria.
— Mãe, conte comigo. A senhora pode chorar em meus ombros. Eu quero ajudar à senhora. Pode contar comigo.
Devido à insistência da filha, Maria resolveu se abrir à companheira:
— Eu sou prisioneira de muitas coisas. Sou resignada a esse casamento fracassado. Não há a liberdade que almejo. Seu pai já me trancou várias vezes no nosso quarto e até me bateu.
— Às vezes acho que papai deveria viver nessa grande casa sozinho Ele é muito egoísta. Disse a Duda à mãe.
Ao sair do quarto, a garota ficou a imaginar o sofrimento da mãe. Disse a si mesma que estava muito triste, por haver ouvido a triste confissão da mãe.
Quando chegou a noite, todos foram dormir, exceto a Duda que permaneceu sentada no sofá a pensar na confissão da mãe. Após uns minutos, a menina se direcionou ao quarto da mãe. Quando Duda chegou ao local, solicitou à mãe que ouvisse uma boa notícia que recebera pela tarde. Contou a Maria que uma amiga da família, que morava na cidade grande, havia lhe convidado a passar uns dias nessa cidade e que poderia levar a mãe em companhia. Maria aceitou o convite da filha e nem pensou em pedir o consentimento do marido. Já estava cansada de ouvir uma resposta negativa. O rosto da índia ficou resplandecente de alegria, pois viajaria com a filha.
Partiram para a cidade grande na mesma semana. Maria estava decidida começar uma nova história, longe daquela fazenda e do coronel Valente. Julgava oportuna a ocasião para dissipar as angustias conjugal. Já a Duda acreditou haver cumprido uma parte da missão que lhe estava designada na terra, que era tirar a mãe daquele sofrimento. O convite da amiga da família foi a oportunidade de retribuir à mãe o carinho e o amor que brilhava nos olhos daquela índia desde o dia em que lhe salvara na beira do rio.
Os desejos de Maria não foram todos consumados, pois o coronel recebeu milhões de Reais da prefeitura pela transposição do rio e pela liberação da passagem da rodovia no interior da fazenda. Mas a liberdade pessoal da índia chegou. Dizem que o coronel viveu o resto da vida sozinho e que a Duda se casou com um deputado da cidade grande e teve dois filhos. A mãe, Maria, foi indicada pelo genro a um cargo na secretaria do meio ambiente da cidade grande.
Thaynara Camila N. Ensino Fundamental
Comentários
Postar um comentário